Aqui onde a vida dobra a esquina, a gente se fala... e se refugia do desinteressante...
Porque tudo é uma questão de opção. Assim podemos ser cidadãos do mundo, carregando sóis gelados e luas coloridas. Podemos ter olhos para o bem estar alheio e estocar imensos pacotes de riso fresco. Não se iludir... mas fantasiar. Ser um sim dos momentos vagos, um enorme talvez das possibilidades. Enxergar tudo que gostamos e "passar batido" pelo que não apreciamos. Ser de empréstimo, de "por acaso", eternos olás de distribuição gratuíta ou pequenos adeuses restritos... Ser um moinho de vento. Até quem sabe, e por que não, o último biscoito do pacote?

ALGUNS FILMES

"VOCÊ NÃO CONHECE JACK"

SINOPSE:  Jack Kevorkian (Al Pacino) sempre defendeu que o ser humano tem o direito de morrer com dignidade, escolhendo a forma como deseja encerrar a vida diante de doenças terminais. Apoiado pelo amigo Neal Nicol e por sua irmã Margo Janus, ele passa a prestar uma "consultoria de morte". Desta forma, Jack ajudou em mais de uma centena de suicídios assistidos, o que lhe rendeu o apelido de Dr. Morte. Em seu trabalho ele ganha o apoio de Janet Good (Susan Sarandon), a presidente do Hemlock Society e a ira dos promotores locais, que abrem um processo contra Jack. O responsável por defendê-lo na corte é Geoffrey Fieger, que precisa lidar não apenas com o processo em si mas também com a cobertura da mídia ao julgamento.




 MINHAS IMPRESSÕES: Na época em que o Dr. Morte iniciou seus trabalhos voltados para a eutanásia, o assunto ainda não tinha a repercussão que tem hoje. Para mim, ele foi o predecessor do que hoje se difunde rapidamente não apenas no meio social, como também nos meios legais, onde se verificam grandes alterações sendo implantadas, no intuito de preservar o direito do paciente terminal. A polêmica sobre o assunto sempre existirá, mas acredito que o paciente terminal precisa ter voz na questão, afinal, o maior interessado é ele. O Dr. Kevorkian pautou-se pelo sentido humanitário da eutanásia e não pelo sentido da seleção natural, onde se verificaram os maiores genocídios da história. Foi incompreendido não apenas por estar à frente de seu tempo. Pecou por acreditar que sozinho demonstraria o sentido real de suas atitudes. Ao preferir uma defesa solitária e inépta, crendo apenas em suas razões, não teve o necessário respaldo e com isso suas idéias foram esquecidas por muitos anos. Hoje, a discussão e a criação de leis que regulem o assunto começam a surgir, vindo em socorro daqueles que não vislumbram qualquer possibilidade de manter suas vidas em patamares adequados à dignidade humana.


 CINEMA NACIONAL:  

"TEMPOS DE PAZ"

SINOPSE: Em abril de 1945 os combates da 2ª Guerra Mundial já cessavam na Europa, mas o Brasil ainda estava tecnicamente em guerra. O combate entre Segismundo, interrogador alfandegário e ex-torturador da polícia política de Getúlio Vargas, com o ex-ator polonês Clausewitz, confundido com um nazista fugitivo, se desenrola na sala de imigração do porto do Rio de Janeiro. Tudo porque o fim da Guerra, por ironia do destino, é o que tira a paz de Segismundo. Ele teme a vingança de seus ex-prisioneiros. E hoje chefe da imigração na Alfândega do Rio de Janeiro, Segismundo é quem decide quem entra ou não no país. Clausewitz terá que usar todo o seu talento de ator para provar que não é um seguidor de Hitler. O filme retrata um período crítico da história brasileira e fala do maniqueísmo e da luta pela vida.

MINHAS IMPRESSÕES:
O filme em si parece meio morno, mas vai ficando melhor, primeiro quando Dan declama o poema "Mãos dadas" (Poema da obra Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade) e depois, quando se inicia a batalha verbal entre Segismundo (Toni Ramos)  e Clausewitz (Dan Stulbach), este um imigrante polonês chegando ao Brasil e aquele um agente alfandegário e ex-torturador. Ouvir Dan declamar o "Monólogo de Segismundo" só se compara à delicia de uma longa tempestade após um extenuante calor, é como encontrar um veio de ouro no meio de um lodaçal... é imperdível, estupendo, cativante. Abaixo o monólogo em si, como letra morta no papel. Eis que se faz imprescindível ver o filme afim de que se entenda o que é dar vida às palavras, matizá-las em tons fantásticos, eternizá-las no solo fértil da memória, torná-las calor abrasivo a aquecer mesmo o mais frio dos corações. Foi isso que Dan Stulbach fez. Tiro meu chapéu, meu gorro, minhas máscaras e aplaudo muito e em pé!!!!!

"Ai miserável de mim e infeliz!
Apurar, ó céus, pretendo,
já que me tratais assim,
que delito cometi
contra vós outros, nascendo;
que, se nasci, já entendo
qual delito hei cometido:
bastante causa há servido
vossa justiça e rigor,
pois que o delito maior
do homem é ter nascido.

E só quisera saber,
para apurar males meus
deixando de parte, ó céus,
o delito de nascer,
em que vos pude ofender
por me castigardes mais?
Não nasceram os demais?
Pois se eles também nasceram,
que privilégios tiveram
como eu não gozei jamais?

Nasce a ave, e com as graças
que lhe dão beleza suma,
apenas é flor de pluma,
ou ramalhete com asas,
quando as etéreas plagas
corta com velocidade,
negando-se à piedade
do ninho que deixa em calma:
só eu, que tenho mais alma,
tenho menos liberdade?

Nasce a fera, e com a pele
que desenham manchas belas,
apenas signo é de estrelas
graças ao douto pincel,
quando atrevida e cruel,
a humana necessidade
lhe ensina a ter crueldade,
monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto,
tenho menos liberdade?

Nasce o peixe, e não respira,
aborto de ovas e lamas,
e apenas baixel de escamas
por sobre as ondas se mira,
quando a toda a parte gira,
num medir da imensidade
co'a tanta capacidade
que lhe dá o centro frio:
só eu, com mais alvedrio,
tenho menos liberdade?

Nasce o arroio, uma cobra
que entre as flores se desata,
e apenas, serpe de prata,
por entre as flores se desdobra,
já, cantor, celebra a obra da natura em piedade
que lhe dá a majestade
do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida,
tenho menos liberdade?

Em chegando a esta paixão
um vulcão, um Etna feito,
quisera arrancar do peito
pedaços do coração.
Que lei, justiça, ou razão,
nega aos homens - ó céu grave!
privilégio tão suave,
exceção tão principal,
que Deus a deu a um cristal,
ao peixe, à fera, e a uma ave?"

MONÓLOGO DE SEGISMUNDO
(LA VIDA ES SUEÑO, Ato I, Cena I - de Pedro Calderón de la Barca)